
Ele acordava cedo, beijava a esposa ainda sonolenta e saía com o discurso pronto: respeito, compromisso, lealdade. Palavras bem arrumadas, como a gravata diante do espelho. No bolso, porém, carregava segredos; na agenda, nomes que não eram o dela; no coração — se é que ainda cabia — uma contradição permanente.
Traía sem culpa, como quem atravessa um sinal amarelo acelerando. Dizia a si mesmo que era diferente, que era “só uma escapada”, que o casamento permanecia intacto porque, ao fim do dia, era para casa que voltava. Mas bastava um atraso da esposa, uma mensagem não respondida, para que o homem se transformasse em juiz. Exigia dela uma fidelidade quase religiosa, uma devoção sem falhas, como se a virtude fosse um contrato unilateral.
Era curioso: quanto mais infiel ele era, mais moralista se tornava. Fiscalizava passos, horários, amizades. Pregava valores que não praticava, defendia regras que só valiam para o outro lado da mesa. A própria consciência, quando ousava bater à porta, era silenciada com justificativas convenientes.
Na política, essa cena não é estranha. Pelo contrário, é rotina. São muitos os que discursam sobre ética enquanto negociam por baixo do pano. Cobram transparência, mas escondem planilhas. Exigem austeridade, mas esbanjam privilégios. Apontam o dedo em riste para a população enquanto a outra mão segura benefícios, acordos e conveniências.
Assim como o marido infiel, há políticos que acreditam que o poder os absolve. Que a traição, quando praticada por eles, ganha outro nome: articulação, sobrevivência, estratégia. Já no campo adversário, qualquer deslize vira escândalo, crime, pecado mortal.
No fim, tanto no casamento quanto na política, a incoerência cobra seu preço. A confiança se esvai, o respeito se rompe, e sobra apenas um discurso vazio, sustentado por quem ainda finge acreditar. Porque fidelidade, seja no amor ou na vida pública, não é aquilo que se exige — é aquilo que se pratica.