Contos: Comida na casa de rico e na casa de pobre no veraneio

Se você for convidado para uma festa de veraneio, observe o endereço. Ele define o cardápio, o clima e até a sua fome.

Casa de pobre é alegria. A mesa dobra de peso. Caldinho borbulhando, peixe frito estalando, feijão gordo, caranguejo no dente. Tem picado, picanha, ate lagosta do defeso. Bebida sem frescura. O pobre recebe como quem vai para a guerra: abastece. Você sai feliz, suado e derrotado pelo bucho.

Casa de rico é penitência gourmet. Castanha, pistache, amendoim contado. Batata de lata e, claro, o infalível ovo de codorna, presença obrigatória do sofrimento. As luluzinhas juram que não comem porque estão no Mounjaro. Os maridões, recém-transplantados de cabelo, exibem topete e barba enquanto debatem procedimentos. Comer, ninguém come. Conversa é sobre agulha, fio e laser. Todos só falam de endocrinologistas, dermatologistas e cirurgiões plásticos.

Um amigo foi ontem ao Sagres, no Porto Brasil. Elite da elite da elite. Serviram Brunello com milho assado (foto). Harmonização criativa, disseram. Faltou só coragem de assumir: rico gosta mesmo é de passar fome com pose.

Gustavo Negreiros

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